Prática

PECS no autismo: o que é o sistema de comunicação por troca de figuras e como o AT participa

O que é PECS autismo: as 6 fases do sistema de comunicação por troca de figuras em tabela, o papel do AT e por que não atrasa a fala.

PECS no autismo: o que é o sistema de comunicação por troca de figuras e como o AT participa

Resposta direta: PECS (Picture Exchange Communication System) é um sistema de Comunicação Aumentativa e Alternativa criado em 1985 por Lori Frost e Andy Bondy no Delaware Autistic Program, nos Estados Unidos, e formalizado em publicação científica em 1994. Ele ensina a criança a trocar uma figura por um item ou ação desejada, construindo comunicação funcional em seis fases progressivas, sem depender da fala para começar. Revisões de literatura associam o uso de sistemas como o PECS ao aumento da produção verbal, não à sua redução, contrariando o mito de que "dar a figura" atrasa a fala. A implementação do PECS é conduzida por fonoaudiólogo ou analista do comportamento responsável pelo caso, e o AT (Atendente Terapêutico) participa executando o protocolo definido por esse profissional, nunca decidindo sozinho quando avançar de fase.

Esse ponto de origem e essa ressalva importam porque boa parte do conteúdo sobre o que é PECS no autismo disponível em português explica o conceito de forma superficial, sem detalhar as seis fases do protocolo original nem deixar claro quem pode conduzir a implementação.

As 6 fases do PECS: tabela com o papel do AT em cada uma

O protocolo original de Frost e Bondy é dividido em seis fases, cada uma construída sobre a anterior. A tabela abaixo resume o que cada fase ensina e o que cabe ao AT fazer dentro dela, sempre sob definição do fonoaudiólogo ou analista do comportamento responsável.

| Fase | O que a criança aprende | Papel do AT nessa fase |
|---|---|---|
| 1. Troca física | Entregar uma figura a um parceiro de comunicação para receber o item desejado | Executa a troca conforme o protocolo, aplica o prompt físico definido pelo profissional responsável |
| 2. Distância e persistência | Buscar a figura e o parceiro mesmo com alguma distância entre eles | Organiza o ambiente para a prática de deslocamento, registra tentativas e persistência |
| 3. Discriminação de figuras | Escolher a figura certa entre duas ou mais opções | Aplica os testes de discriminação definidos, registra acertos e erros para o profissional ajustar |
| 4. Estrutura de frase | Montar uma frase simples com figura de "eu quero" mais o item desejado | Apoia a montagem da tira de frase, reforça conforme orientação, sem alterar a estrutura por conta própria |
| 5. Resposta a perguntas | Responder "o que você quer?" usando a estrutura de frase já aprendida | Faz as perguntas na frequência combinada com o profissional, registra o tempo de resposta |
| 6. Comentário espontâneo | Comentar sobre o ambiente sem que alguém pergunte, ampliando o vocabulário funcional | Cria oportunidades naturais de comentário durante a sessão, registra frequência e contexto dos comentários |

Fases descritas a partir do protocolo original de Frost e Bondy (1994) e do detalhamento de generalização de mandos por PECS publicado em pesquisa nacional (PePSIC, 2017). A passagem de fase é sempre definida pelo profissional responsável pelo caso, com base no desempenho registrado, não em tempo fixo de calendário.

PECS atrapalha o desenvolvimento da fala? O que diz a literatura

Esse é o mito mais comum em torno do PECS, tanto entre famílias quanto entre profissionais em formação. Uma revisão bibliográfica publicada na Revista Educação, Artes e Inclusão (UDESC) reforça que o uso de sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa como o PECS está associado ao aumento da produção verbal, não à sua redução. A lógica por trás disso é comportamental: reduzir a frustração de não conseguir se comunicar tende a abrir espaço para a fala surgir, em vez de substituí-la definitivamente. Isso não significa que todo caso vai evoluir para fala funcional, apenas que o uso do PECS não é a causa de uma criança permanecer não verbal.

Por que a implementação do PECS não é decisão do AT

O AT participa ativamente da rotina de aplicação do PECS, mas a decisão de introduzir o sistema, definir a fase inicial e avançar entre fases é conduzida por fonoaudiólogo ou analista do comportamento responsável pelo caso. Essa divisão de papéis está alinhada ao que já se explica em prática supervisionada do AT: o profissional que forma e orienta um AT ensina a executar protocolo com rigor, não a substituir a avaliação clínica de quem responde tecnicamente pelo caso. Na prática, isso significa que o AT nunca decide sozinho trocar de fase porque "a criança parece pronta", essa leitura cabe ao profissional que acompanha o desempenho registrado sessão a sessão.

O que o AT registra durante uma sessão com PECS

O registro de dados é o que sustenta o ajuste do protocolo entre uma sessão e outra. Durante uma sessão de PECS, o AT costuma anotar: quantas trocas foram iniciadas de forma independente versus com prompt, quantas figuras foram discriminadas corretamente, o tempo de resposta a perguntas na fase 5 e a frequência de comentários espontâneos na fase 6. Esse registro não é burocracia, é a base que o fonoaudiólogo ou analista do comportamento usa para decidir se a criança está pronta para avançar de fase ou se precisa de mais prática na fase atual.

PECS combinado com outras estratégias de comunicação

Na prática clínica, o PECS raramente é usado isolado. Ele costuma aparecer combinado com rotina visual mais ampla, apoio de pictogramas para transição entre atividades e, em muitos casos, junto com trabalho fonoaudiológico direto de fala quando o perfil da criança indica potencial para isso. O AT que participa de casos com PECS se beneficia de entender esse contexto mais amplo, e não tratar o sistema como uma técnica isolada e fechada em si mesma.

Perguntas frequentes

PECS atrasa ou impede o desenvolvimento da fala? Não. Revisões de literatura associam o uso de sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa como o PECS ao aumento da produção verbal, não à sua redução. A lógica é que reduzir a frustração de não conseguir se comunicar costuma abrir espaço, não fechar, para a fala surgir.

Quais são as 6 fases do PECS? Troca física simples, expansão de distância e persistência, discriminação entre figuras, estrutura de frase, resposta a perguntas e comentário espontâneo. Cada fase constrói sobre a anterior e a passagem de uma para outra é definida pelo profissional responsável pelo caso, não por tempo fixo de calendário.

O AT pode introduzir o PECS sozinho ou precisa de orientação do fonoaudiólogo? O AT não decide sozinho iniciar ou avançar fases do PECS. A implementação é conduzida por fonoaudiólogo ou analista do comportamento responsável pelo caso, e o AT executa o protocolo definido, registra dados de cada tentativa de troca e reporta ao profissional responsável.

PECS serve só para crianças não verbais? Não necessariamente. O PECS também é usado com crianças que falam mas têm comunicação funcional limitada, como apoio complementar à fala em momentos de maior demanda ou frustração, sempre conforme avaliação do profissional responsável pelo plano terapêutico.

Referências

  • Scielo/CoDAS. Comunicação alternativa e aumentativa no transtorno do espectro do autismo: impactos na comunicação. Disponível em: scielo.br/j/codas/a/QxhXpZ3jckz6K3dyCdbVhXq/?format=html&lang=pt
  • PePSIC. Generalização de mandos aprendidos pelo PECS (Picture Exchange Communication System) em crianças com transtorno do espectro autista, 2017. Disponível em: pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2017000200007
  • Revista Educação, Artes e Inclusão (UDESC). Revisão bibliográfica sobre Comunicação Aumentativa e Alternativa e produção verbal. Disponível em: revistas.udesc.br/index.php/arteinclusao/article/view/12746

Quem quer entender a rotina de comunicação em conjunto com regulação de crise pode ler também birra ou crise sensorial no autismo, já que dificuldade de comunicação funcional costuma estar por trás de boa parte das crises registradas em sessão.


Escrito por Equipe Academia do AT. Revisão técnica: Matheus, Atendente Terapêutico e fundador da Academia do AT, com prática clínica na CBTEP. Última revisão: agosto de 2026, com revisão trimestral programada para acompanhar novas evidências publicadas.

Perguntas frequentes

PECS atrasa ou impede o desenvolvimento da fala?

Não. Revisões de literatura associam o uso de sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa como o PECS ao aumento da produção verbal, não à sua redução. A lógica é que reduzir a frustração de não conseguir se comunicar costuma abrir espaço, não fechar, para a fala surgir.

Quais são as 6 fases do PECS?

Troca física simples, expansão de distância e persistência, discriminação entre figuras, estrutura de frase, resposta a perguntas e comentário espontâneo. Cada fase constrói sobre a anterior e a passagem de uma para outra é definida pelo profissional responsável pelo caso, não por tempo fixo de calendário.

O AT pode introduzir o PECS sozinho ou precisa de orientação do fonoaudiólogo?

O AT não decide sozinho iniciar ou avançar fases do PECS. A implementação é conduzida por fonoaudiólogo ou analista do comportamento responsável pelo caso, e o AT executa o protocolo definido, registra dados de cada tentativa de troca e reporta ao profissional responsável.

PECS serve só para crianças não verbais?

Não necessariamente. O PECS também é usado com crianças que falam mas têm comunicação funcional limitada, como apoio complementar à fala em momentos de maior demanda ou frustração, sempre conforme avaliação do profissional responsável pelo plano terapêutico.